
Ciência
Cabo Verde: Organizações ambientais alertam para os impactos da iluminação LED na fauna nocturna
Várias organizações ambientais cabo-verdianas alertam para os impactos da iluminação pública LED na fauna nocturna, apontando para casos de desorientação e mortalidade de aves marinhas e para uma redução da nidificação de tartarugas marinhas em algumas zonas do arquipélago. Em Santo Antão, a directora-executiva da Associação Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Terrimar), Silvana Roque , explica que a iluminação instalada na ilha está a afectar sobretudo as aves marinhas, que realizam voos nocturnos e podem ficar desorientadas pela intensidade da luz: “ A iluminação LED que está sendo colocada aqui na ilha de Santo Antão afecta as aves marinhas, porque causa desorientação ”. Desorientadas as aves podem cair ao chão, podendo assim ficar feridas ou expostas a predadores. “ Muitas vezes acabam por se tornar um alvo fácil para predadores, por exemplo, os gatos ”, refere Silvana Roque, acrescentando que têm sido registados vários casos na zona de Ribeira das Pombas. A responsável alerta igualmente para os efeitos da iluminação sobre as tartarugas marinhas, particularmente na Praia Grande, na zona do Tarrafal. Apesar de não existir iluminação directamente na praia, a luz proveniente das habitações próximas acaba por incidir sobre a faixa costeira: “ A praia fica toda iluminada durante toda a noite ”. A exposição à luz artificial pode, segundo Silvana Roque, inibir a saída das tartarugas para a desova. “ Quando há uma luz muito forte, elas ficam inibidas e acabam procurando outras praias para desovar ”. Durante a actual campanha de monitorização, a Terrimar observou “ uma diminuição significativa na quantidade de saídas e ninhos nessa praia comparado a anos anteriores ”, situação que a organização associa também à iluminação existente nas proximidades. Para reduzir estes impactos, a organização defende que a iluminação deve ser direccionada para o chão, evitando a dispersão da luz para o céu e para zonas laterais: “ A intenção da iluminação é iluminar a via onde as pessoas passam. Não é necessário iluminar para cima nem para os lados numa longa distância ”. Silvana Roque sublinha que a Terrimar não se opõe à iluminação pública, reconhecendo a sua importância para a segurança das comunidades. “ Porém, há que se pesar os impactos que isso pode causar na biodiversidade ”, afirma, defendendo que as questões ambientais sejam consideradas desde a fase de instalação. Na ilha do Sal, o director-executivo do Projeto Biodiversidade, Albert Taxonera , alerta igualmente para os efeitos da poluição luminosa sobre tartarugas e aves marinhas. Segundo o responsável, as tartarugas adultas tendem a evitar zonas muito iluminadas, enquanto as crias recém-nascidas se orientam naturalmente em direcção à luz, o que as pode conduzir para locais inadequados. “ Não é uma questão de distância, é uma questão de intensidade e de visibilidade ”, explica, sublinhando que mesmo fontes luminosas localizadas a alguma distância podem afectar a fauna. Para Albert Taxonera, o problema não se limita à substituição das antigas lâmpadas de vapor de sódio por LED, mas à expansão da iluminação artificial em geral. No Sal, uma ilha com forte desenvolvimento turístico, existem já diversos focos de iluminação pública e privada, incluindo iluminação de segurança, obras e estaleiros. Embora reconheça que a tecnologia LED permite reduzir o consumo energético, Albert Taxonera considera que não deve ser automaticamente classificada como amiga do ambiente: “ A luz LED, embora durante muitos anos se vendeu como ‘ecofriendly’ (amiga do ambiente), não é uma luz amiga do ambiente, no sentido de que tem impacto grande na vida selvagem ”. O responsável defende, por isso, uma planificação mais rigorosa da iluminação pública, avaliando onde a instalação é realmente necessária. Em estradas com pouca circulação, por exemplo, poderão ser consideradas alternativas como pinturas reflectoras ou pequenos dispositivos de sinalização, em vez de iluminação permanente. Nas zonas próximas de colónias de aves marinhas ou de praias de desova, o director-executivo do Projeto Biodiversidade aponta para a utilização de luzes com tonalidades vermelha ou laranja e para uma instalação que limite a visibilidade da luz a partir das áreas sensíveis. “ Colocar as luzes mais baixas, mais perto do chão, para evitar que seja visível desde a praia ”, exemplifica. Todavia a organização ambiental alerta que a simples colocação de filtros sobre as lâmpadas não resolve necessariamente o problema. “ Temos que ser muito mais técnicos e pesquisar muito melhor ”, defende, salientando a necessidade de avaliar as características espectrais, a intensidade e o posicionamento das fontes luminosas. Os dados recolhidos pelo Projeto Biodiversidade no Sal apontam já para impactos significativos sobre as crias de tartarugas. Segundo Albert Taxonera, em algumas praias, a poluição luminosa poderá já afectar “ até 50% ” dos ninhos, mesmo em zonas relativamente afastadas e inseridas numa reserva natural. Em áreas mais turísticas, o impacto poderá atingir a totalidade dos ninhos: “ Aí podemos dizer que provavelmente 100% dos ninhos. É por isso que muitos desses ninhos foram transferidos para viveiros de incubação ”. As organizações defendem, assim, que a modernização da iluminação pública seja acompanhada por estudos e medidas de mitigação destinados a proteger a biodiversidade e dizem estar disponíveis para trabalhar com a empresa de electricidade e outras entidades na procura de soluções que conciliem a iluminação necessária às comunidades com a conservação da fauna. A substituição da iluminação pública por tecnologia LED começou formalmente em Fevereiro de 2025. A Brava foi a primeira ilha do arquipélago a ter iluminação LED em toda a sua extensão, no início de 2026. A modernização integra a estratégia de transição energética de Cabo Verde e pretende aumentar a eficiência energética. O país estabeleceu como meta atingir 50% de produção de electricidade a partir de fontes renováveis até 2030.

